domingo, janeiro 30

Anónimo lomba

Certo dia acordara e havia uma pequena lomba no meio do quarto. No dia seguinte eram mais duas, e no seguinte mais ainda. Passada uma semana teria que atravessar uma mar revolto de alcatifa da porta do quarto até à cama sempre que se ia deitar.
então decidiu que era altura para medidas drásticas: subiu ao sotão e foi buscar o escafrando do avô. isso e uma tesoura da poda fizeram o serviço: abriu um túnel da cama à porta e montou uma linha interior de monorail.
.Blogger Kyriu 30/1/05 3:49 da tarde  

sábado, janeiro 29

framboesa

o violoncelo estava quieto. um ratito comia migalhas perto da janela, enquanto o gato, perto da porta, tentava decidir se iria dormir ou perseguir o rato.
A sombra recordava aberta desde a porta a forma alongada de um felino aparentemente disperso mas que na verdade assumia em contemplação um plano em cujo avanço um rato seria atraído por migalhas deixadas perto da janela e faria tombar o velho violoncelo fechando o rato num labirinto de limitadas liberdades e …
.Blogger animah 30/1/05 2:24 da manhã  
O pequeno rato fazia, por vontade sua, o orgulho do gato tremer no largo violoncelo. Produzindo a exacta sonoridade do calcar de migalhas de biscoitos de aveia em chão de madeira de cerejeira. Podia em delírio então recordar menos espartanos tempos e quedar-se ao sol tranquilo.
.Blogger animah 30/1/05 2:44 da manhã  
o gato tinha migalhas nos bigodes.
.Blogger Kyriu 31/1/05 12:07 da manhã  

sexta-feira, janeiro 28

animah

Foi então que a vi. Era negra e reluzente. Levantei-a do chão e com ela um conjunto de fios verdes e brilhantes como habitados por pirilampos.
Não trazia rótulo como as anteriores e os fios que saiam de uma pequena concavidade na zona inferior entranhavam-se ainda na terra animados.
Ao calor das minhas mãos passou de uma massa oval para algo que se assemelharia a um pequeno humanóide. Saberia agora quem deveria assassinar. Lentamente. Membro a membro. Por fim a face.
Encontrei no seu rosto a mesma expressão, os mesmos olhos inquietos, as mesmas patilhas, os mesmos pêlos rudemente barbeados…
Era a minha imagem… então sorri. Ele sorriu-me de volta, e rebentou.
E nesse instante, a minha mente arrastou-me até àquele momento único em que sentira o sol escapar-se por entre duas nuvens carregadas de chuva até alcançar o terreno onde me encontrava. Sentado mas inquieto, queria fazer coisas, ir até ao fim do mundo sem fazer perguntas, destruir quem se atravessasse no meu caminho. Ao meu lado, ela mantinha os olhos fechados, a minha mão enrodilhada nos cabelos longos. Ela não me conhecia, não sabia que eu era capaz de matar e de ansiar por esse instante. Eu ainda era jovem…
.Blogger framboesa 29/1/05 10:25 da tarde  

segunda-feira, janeiro 24

Anónimo LX1256

As asas do aeroplano transportando aquele tipo de passageiros tinham que ter uma fita colada a toda a volta com o aviso DO NOT WALK BEYOND THIS LINE. Ser responsável pela esplanada nos voos LX1256 era o degrau mais baixo da carreira de hospedeira, mas ela faria qualquer coisa para saber o que era estar dentro de uma nuvem.
Os fatos dos funcionários da empresa tinham sido desenhados especialmente por um estilista do nível 5. Este tinha usado um sortido de materiais autoadesivos que garantiam o equilíbrio "In all weather conditions" (etiqueta adesiva número 3, dobra interior esquerda). Depois do curso intensivo de treino com técnicas memo-psique tinha chegado o dia UM, quando iria supervisionar os preparados liquidos cor-de-laranja vivo dos passageiros num voo entre duas cidades de categoria 2 (LX-PRS).
.Blogger Kyriu 25/1/05 10:26 da manhã  

domingo, janeiro 23

animah cardápio

A passagem de mercúrio pela casa de pasto é decididamente um bom período para se relacionar com os seus pontos de vista. Essa nitidez apesar de transitória trará, por sua vítrea condição, uma comunicação mais autêntica e harmónica com as hortaliças e demais rabanetes. Deve, neste período, evitar confrontos directos com os nativos de hortelã-pimenta por razões óbvias.
Nunca encontrei premonições sobre courgettes. Ou alcaparras. E ficam tão bem em qualquer frigideira ou wok que se preze...
.Blogger Kyriu 23/1/05 11:47 da tarde  

quarta-feira, janeiro 19

animah sonífero

Hoje encontrei um pastor que tocava concertina-de-dedos.
Minúsculas ovelhas anãs, em transe ritmado, pulavam estrofes como sebes.
E a plateia atraída, caía adormecida, ao salto de cada ovelha.
era um método singelo de aconchegar os sonhos. após a obra feita ele abria o capote, abotoando-se as ovelhas nos bolsos.

pastor: um balido por pulo

.Blogger Kyriu 20/1/05 12:08 da tarde  

Anónimo

Compro ou não compro pensei eu e decidi-me metendo a mão até ao fundo no barril o braço mergulhado nos corpos esguios pequenos e ressequidos que se contorciam tirando-o logo de imediato na expectactiva de ter agarrado um pouco de sabedoria e bom senso. Faltaram-me as vírgulas para que a coisa funcionasse.

segunda-feira, janeiro 17

animah

Eram só três os que restavam. Ali encolhidos na sombra da xícara, tremiam assustados perante o apetite insaciável daquela estranha criatura.
Ver os seus companheiros de jornada serem devorados no espaço de um instante aterroriza qualquer um. De súbito uma aragem trouxe noticias da estufa, “tudo o que é verde escuta o silencio”. A retaliação estava eminente.
com novo alento, empilharam-se e atafulharam-lhe a boca de tal maneira que fizeram o dilúvio descer à terra em tons alface.
.Blogger Kyriu 18/1/05 1:34 da tarde  

domingo, janeiro 16

Kyriu frutos

a língua inseriu-se na vertical, sondando a partir de fora, penetrando. ao encontrar o caroço, os dedos abriram o invólucro, fazendo o sumo escorrer pelos braços, até ao solo. surpreendido em plena actividade, escapuliu-se com um sorriso, deixando a estrada juncada de frutos devassados.

sexta-feira, janeiro 14

animah a previsão

Nenhum pássaro tinha entrado no seu quarto de madrugada para lhe depositar uma semente de hortelã no ouvido. Não tinha sido avisado por uma sequência de sinais legíveis a quem procura, nem sonhado, nem ninguém lho dissera.
Mas ainda assim tropeçara no tapete da entrada da sala das rosas.
Era absurdo.
e aposto que nem sequer reparou nas romãs no cesto de vime junto à janela, mesmo ao lado de uma velha camisa que fazia de cama para o gato.
.Blogger framboesa 16/1/05 8:11 da tarde  

quinta-feira, janeiro 13

Anónimo o "i" decapitado

Ouvido de passagem num ajuntamento de letras:
"Que seja declarado em acta que desde a última sessão um dos membros desta conferência já não está entre nós. O assassino e cúmplices estão a monte e julgam-se armados com nomes absurdos."
o monte sempre quis ter pinta... eu, pessoalmente, repugnam-me um pouco os invejosos.
.Blogger Kyriu 13/1/05 11:02 da tarde  

quarta-feira, janeiro 12

Anónimo o inquilino secreto

Como ia de viagem espalhou-lhe flocos de neve pela casa toda: nos bolsos das calças, dos casacos, dentro da gaveta das meias, da caixa de fósforos, do saco das molas, na lata das bolachas, no lugar da antena de televisão, dentro da guitarra...
Quando regressou só encontrou amores-perfeitos no lugar dos flocos. Quando juntou leite à casa (para lavar aquilo tudo) descobriu-se observado por uns fantásticos olhos verdes.
.Blogger Kyriu 12/1/05 10:31 da tarde  
e no aquário de peixes de olhar esgazeado...
.Blogger framboesa 12/1/05 10:36 da tarde  
no fundo do aquário sobrevivia um floco de neve. tinha decidido ser eremita.
.Blogger Kyriu 12/1/05 11:28 da tarde  
Claro que surgiram logo problemas, que é o que se segue naturalmente a seguir aos flocos de neve. Alguns criaram guetos inexpugnáveis que se foram alargando, alargando, até tomarem a casa toda.
.Anonymous Anónimo 19/1/05 2:34 da tarde  

Kyriu caleira

assim, de raspão, espirrou e começou a gotejar. depois, desatou a correr pelo barril adentro e a gritar:
"Amoras! Amoras! Amoras!"
há dias em que a água escorre assim...
sem que nada o fizesse prever, guinou com o corpo para a esquerda e saltou sobre um obstáculo imaginário, um sorriso de gaiato nos lábios.
.Blogger framboesa 12/1/05 9:02 da tarde  

terça-feira, janeiro 11

Anónimo

Quando abrirem o pacote, não expludas. Sê uma bomba revolucionária.
Não fiques assim, a culpa foi minha, abri depressa de mais e intimidei-te. Vais ver que da próxima vez tudo corre bem, descontrai.
.Blogger animah 11/1/05 11:31 da manhã  
Não acreditara quando um livro certo dia lhe disse que cada homem tem uma bomba à altura do peito. Quem diria que seria assim, trágicamente, que desvendaria o seu último segredo.
.Anonymous Anónimo 12/1/05 10:08 da tarde  

Anónimo E.A. - Escritores Anónimos

Concentra-te, vá! Tu consegues! Primeiro uma palavra, depois outra em frente da primeira e assim por diante, até chegar à beira do precipício. Atenção, o momento aproxima-se, é preciso saber parar. Agora chega... vá já está bom! Pára agora! PÁRA!
(Céus, outra vez! Três linhas, eram só três linhas.)
arrasadores os dedos que sabem escrever, são eles os verdadeiros guerreiros da palavra.
.Blogger framboesa 11/1/05 4:51 da tarde  

Anónimo o jardineiro do palácio barroco

Certo dia apeteceu à sua curiosidade ver o mundo. Venha cá alguém dizer-lhe que não fez bem, que isto ou que aquilo. De vez em quando ouvia vozes do outro lado dos arbustos falando em línguas desconhecidas e aquele labirinto era uma coisa infindável. Finalmente cedeu.
Foi o dia do grande incêndio.
No calor da sua vontade incendiou tudo à sua volta. A cada passo mais um arbusto se perdia em chamas e cedia passagem. E assim andou em linha recta, abrasador, trespassando curvas e finais proibidos.
Duzentos metros depois, já não ouvia vozes, apenas murmúrios furtivos.

.Blogger animah 11/1/05 12:05 da tarde  

segunda-feira, janeiro 10

Anónimo

Terá de ser assim, lamento. Há piruetas que precisam de ser chamadas à atenção e detractores de flics-flacs à rectaguarda que não passam de actos de boémia.
O mini-trampolim conhecia os seus direitos e deveres e cumpria-os na perfeição. Tinha conseguido um 10 perfeito em elasticidade e propulsão no controle de qualidade. Tornara-se tão seguro de si que fazia o que queria do seu atleta.
.Anonymous Anónimo 11/1/05 12:06 da manhã  

Anónimo

Perdi a calma e a compostura. Ambas eram azuis, assim como caixas pequenas em que se consegue tropeçar sem partir o nariz.
A calma era azul lá fora. A descomposta sentia-se como numa pequena caixa, na qual se passeia de olhos bem abertos para não se partir o nariz.
.Blogger animah 10/1/05 8:43 da tarde  
o que lhe fazia impressão era, no meio da caixa, um pião que rodava, rodava, rodava, até que fez um buraco e caíu pelo buraco das calças.
.Blogger Kyriu 10/1/05 11:41 da tarde  

Anónimo

Compotas de framboesa, morango e amoras. A prateleira de madeira não tem o que procuro.

sábado, janeiro 8

framboesa

realmente não se importava com o frio ou com o calor. os pés aconchegados junto do cotovelo. estava mesmo bem assim... ok, ainda lhe apetecia mais. talvez uma sopa de lentilhas.

Kyriu

gostava de lamber a seiva azul que lhe corria nas veias, quando ela se decidia a alisar o pêlo. o movimento de fricção fazia saltar pequenas faíscas que, interagindo com a ponta da língua, causavam uma sensação de prazer correspondente a 6,7 na escala de gelados de menta-limão.

sexta-feira, janeiro 7

animah

- Some-te da minha frente! - disse ela autoritária brandindo o apontador laser.
De súbito nada restava daquele rapazote de olhos grandes e expressão traquina … silêncio … uma leve nuvem de pó colorido planava em lenta queda.
- chiça! Era capaz de jurar que o tinha em "atordoar"!

Quando a poeira assentou, ela viu com espanto o rapaz levantar-se lentamente e começar a afastar-se com um grande buraco na barriga e cara de poucos amigos.
mão esquerda | 1/7/2005 12:52:28 PM
Ainda perplexa, apercebeu-se de um rasto de pequenas gotas negras e luzidias, que ele deixara no chão ao afastar-se. Foi já tarde quando se apercebeu que as mesmas eram óleo das suas complicadas engrenagens internas. Tarde de mais para o chamar à atenção. Era afinal apenas mais um modelo a sair insubordinado da montagem.
animah | 1/9/2005 12:59:58 PM
passou o dedo pelo liquido espesso e cheirou: "cereja... deve ter cristalizado. tenho de o apanhar". guardou o apontador e seguiu o rasto brilhante pelo corredor da fábrica.
Kyriu | 1/9/2005 05:51:21 PM
com cuidado e com um sorriso, ia escutando os pequenos ruídos metálicos que aqui e ali faziam ricochete nas tubagens sem cor, enquanto se aproximava de uma parede ausente.
.Blogger framboesa 9/1/05 9:40 da tarde  

Kyriu burukratik

ele tinha um dilema. daqueles modelo 3B 43/3, requerido na Agência de Distribuição. e quando finalmente se resolveu a entregar os papeis havia uma rasura e o pobre diabo ficou encravado com o dito...

quinta-feira, janeiro 6

Anónimo companhia

Eram duas pequenas ilhas montanhosas quase a desaparecer na linha curva do horizonte. Estudaram-se ao longe durante centenas de anos, até que um dia começaram as erupções. Aos jornais da manhã seguinte alegaram que estavam fartas de forçar os olhos e resolveram juntar-se, mas todos os nativos sabiam que tinha sido um caso de amor à primeira vista.

Kyriu obras

"Mais alto! Mais Alto! Mais ALTO POR" (o "porra" foi tarde de mais, levou com a tábua mesmo no meio da tola)
pensei q era "mais alto por favor" :)
sim, eu sei, mas as excepções existem.

.Blogger animah 6/1/05 10:33 da manhã  

animah o outro

Cabulou monte abaixo para ganhar balanço e ainda no embalo estudava a próxima ladeira a subir. Ao sétimo monte descansou.

quarta-feira, janeiro 5

framboesa

já to tinha dito... as coisas são muito mais bonitas quando ditas com sinceridade... escusas de mentir... e depois ris-te, na minha cara!

animah

decerto imaginara-se sozinho quando tentou o duplo mortal por cima daqueles quatro incautos contentores.

Kyriu branco

a bola de neve rebolou pelo chão, dlim, dlim, dlão

seixo Hum...

Então agora é só escrever e já está?

animah rama

kasshuu
Como disse?! Queria certamente dizer: caju!
.Blogger seixo 5/1/05 5:11 da tarde